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segunda-feira, 11 de abril de 2016

Problemas de US$ 1 milhão


Conhecido pela capacidade de falar de matemática de forma divertida, britânico lança obra recheada de enigmas até hoje indecifráveis e que valem um bom dinheiro


texto André Julião

Marcus du Sautoy entendeu ainda cedo que a matemática não deveria ficar restrita aos cálculos, fórmulas e equações. Para ele, quase tudo pode ser explicado em termos matemáticos, e o que não pode é um mistério empolgante que um dia ainda será resolvido. Esses enigmas ainda não solucionados são o mote de seu livro Os mistérios dos números – uma viagem pelos grandes enigmas da matemática (que até hoje ninguém foi capaz de resolver), lançado no Brasil pela Zahar. Mais do que um pesquisador na área, Sautoy tem se notabilizado como divulgador da disciplina. Ele escreve em revistas de divulgação científica e jornais e é figurinha fácil em programas de rádio e TV na Grã-Bretanha. Seu talento para explicar matemática às massa rendeu-lhe a Cátedra Simonyi para a Compreensão Pública da Ciência da Universidade de Oxford, onde Sautoy é professor. A cátedra foi criada em 1995, financiada pelo húngaro-americano Charles Simonyi, antigo programador da Xerox e da Microsoft famoso por ser o primeiro homem a ir duas vezes ao espaço como turista espacial. Sua intenção era de que o premiado fizesse importantes contribuições para a compreensão pública de algum campo científico. Seu primeiro titular deveria ser o evolucionista Richard Dawkins. Sautoy sucedeu Dawkins em 2008, com a aposentadoria do polêmico cientista militante do ateísmo. 

Em Os mistérios dos números, Sautoy apresenta de forma divertida conceitos que podemos até ter visto na escola, mas cuja apresentação provavelmente não foi tão intrigante como a que ele faz. “O sistema educacional opta por privilegiar o lado utilitário e funcional da matemática e não as belas e excitantes ideias. É como aprender escalas e arpejos num instrumento musical e nunca ouvir música de verdade”, disse o autor por e-mail à Unesp Ciência, da beira da piscina, enquanto aproveitava um feriado na Inglaterra. “Este livro é meu manifesto para o que deveria ser ensinado nas escolas”, completa o professor. 

No primeiro capítulo, por exemplo, em que se dedica a mostrar os enigmas que cercam os números primos, Sautoy usa o exemplo de uma espécie de cigarra que aparece nas florestas dos Estados Unidos e no Canadá a cada 17 anos (um número primo, ou seja, divisível apenas por um e si mesmo). O inseto, da espécie Magicicada septendecim, passa todo esse tempo debaixo da terra, sugando as raízes das árvores para se alimentar. Em um dia de maio do 17º ano de seu ciclo de vida, as cigarras saem da toca e começam a cantar umas para as outras. O barulho é tão grande que muitas pessoas se mudam da região nessa época. Depois de fertilizadas, as fêmeas depositam os ovos na superfície e, após seis semanas de muito barulho, todas as cigarras morrem e a floresta fica em silêncio pelos próximos 17 anos. 


Encontro fatal 

A teoria mais usada para explicar esse fenômeno é a de que um possível predador também costumava aparecer periodicamente na floresta, sincronizando sua chegada com a das cigarras, quando então podia se banquetear delas. Com a seleção natural regulando sua vida em ciclos de números primos (existem ainda espécies que aparecem a cada 13 anos, e outras a cada sete, ambos igualmente números primos), as cigarras se depararam com predadores com muito menos frequência do que se tivessem um ciclo de número não primo. “Por exemplo, suponhamos que os predadores apareçam a cada 6 anos. As cigarras que surgem a cada 7 anos irão coincidir com os predadores apenas a cada 42 anos. Por outro lado, as que aparecem a cada 8 anos irão coincidir com os predadores a cada 24 anos; cigarras que surgem a cada 9 anos coincidirão ainda mais amiúde: a cada 18 anos”, escreve. Com um ciclo de 17 anos, o encontro da cigarra com seu predador vai demorar mais de 100 anos para ocorrer. 

O talento de Sautoy para encontrar em outras ciências e, mesmo no dia a dia, exemplos de aplicação da matemática foi apurado durante os anos como estudante da mesma Universidade de Oxford em que dá aulas hoje. “O sistema de Oxford encoraja os estudantes de matemática a interagir com os de outras áreas. Então eu passei muito tempo explicando para filósofos, historiadores e músicos as maravilhas da minha área de estudo. Acho que foi graças a essa atmosfera interdisciplinar como estudante que eu me dei conta de que tinha uma habilidade para explicar conceitos da matemática para não-matemáticos”, diz. “Fiz também muito teatro, acho que é por isso que eu gosto de fazer programas de TV sobre matemática. Aliás, acabo de escrever uma peça chamada X&Y sobre questões que trabalho na matemática. Espero levá-la ao Brasil um dia!” 

Para quem ainda não se convenceu a ler o livro, Sautoy, autor também do aclamado A música dos números primos, lançado aqui em 2007, dá a chance para o leitor ganhar US$ 1 milhão. É quanto o empresário americano Landon Clay oferece para quem resolver um dos seis “Millenium Prize Problems” ainda sem solução. O único deles resolvido até agora, conhecido como Conjectura de Poincaré, foi solucionado pelo russo Grigori Perelman em 2002. Em 2010, o Clay Mathematics Institute, fundado por Landon Clay, anunciou que Perelman era o vencedor de um dos prêmios milionários, mas este recusou a oferta, alegando que o reconhecimento pela solução era suficiente. 

Segundo Sautoy, quem se propuser a resolver algum dos problemas deve ter “pensamento lateral”, uma tradução aproximada de “lateral thinking”, termo cunhado pelo médico maltês Edward de Bono para descrever a solução de problemas através de uma abordagem indireta e criativa. “Deve ser alguém que possa olhar para um problema de um novo jeito, perguntar uma nova questão, encontrar um método alternativo de solucioná-lo. Eu acredito ainda que esses problemas precisam de alguém que possa combinar toda uma gama de formas matemáticas de pensar”, afirma o autor. 

A recompensa maior, segundo Sautoy, sempre será a resolução do problema em si. Perguntado se às vezes não é frustrante ser um matemático, principalmente quando não se consegue solucionar um problema, ele diz: “Com certeza! Mas, de certa forma, essa também é a graça da coisa. Porque a excitação e o afluxo de adrenalina que ocorrem quando você finalmente resolve um problema que foi tão difícil de solucionar compensa toda a frustração”.


Referência:

Revista: Unesp Ciência, setembro de 2013 - Ano 5, nº 452013  <http://www.unesp.br/aci_ses/revista_unespciencia/acervo/45/livros>. Acesso em 11 abr 2016.

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