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sábado, 6 de fevereiro de 2010

A Poesia Visual

A poesia utiliza, por vezes, formas matemáticas. 
É o caso da poesia visual, onde as palavras ganham sentido pela sua disposição, a maior parte das vezes geométrica. 
O poema transforma-se então num “objecto visual” que, mais que ser lido, tem de ser visto. 

Por exemplo, no poema “Rio: o ir” de Arnaldo Antunes, as letras acabam por representar formas geométricas (o “o”, um círculo, e o conjunto de “i”s, um octógono). 
Para além disso, são aqui aplicadas as rotações e as simetrias: o “R” apresenta-se numa posição diferente em todas as faces do octógono. Assim, podemos ler “Rio” e “o Ir”, conforme leiamos de fora para dentro, ou de dentro para fora, com o “R” virado ou não para o centro. 
A finalidade desta ambiguidade é precisamente transmitir a ideia da corrente do rio, do movimento da água. Se olharmos para o poema enquanto conjunto de formas, também podemos sentir isso mesmo através da disposição da letra “R”.


Este outro poema de Augusto de Campos, intitulado “SOS” apresenta também mais um recurso às  formas matemáticas para a transmissão da ideia do poema. 
Dentro de um grande círculo negro, as palavras tomam uma disposição em espiral.
Assim, à medida que o leitor vai lendo sente “o fechar-se sobre si mesmo” que o autor quer fazer transparecer. A sensação de solidão é muito mais forte e vai crescendo, culminando num “SOS” desesperado, um pedido de ajuda no meio do silêncio, quase do nada, sugeridos pelo grande fundo negro. 
Este é um caso em que o sentido do poema é dramatizado pelo recurso à Matemática, neste caso concreto, a espiral.



Em “Teorema”, de Franklin Capistrano, não são as formas que estão propriamente em jogo. 
Neste poema, são aproveitados  símbolos matemáticos, bem como a famosa equação de Einstein sobre a energia: E=Mc2. Uma das interpretações possíveis deste poema toma as palavras entre parênteses por uma substituição dos verdadeiros factores da equação.
Assim, “Teo” significa Deus, pois é o radical que encontramos em palavras como “Teologia”, vindo do grego “Teos” que significa exactamente o mesmo. “Zen”, segundo o Dicionário é uma “forma de budismo (…) no qual a meditação toma um lugar de relevo e é suscitada pelo amor à natureza e à vida, levando ao desenvolvimento da personalidade, mediante o conhecimento próprio”.
Então podemos dizer que, por um lado, Deus é a energia, com todo o significado simbólico que possamos atribuir a esta afirmação. Por outro lado, se podemos saber a energia multiplicando a massa pela velocidade da luz ao quadrado (MC2), podemos então chegar a Deus e conhecer essa “energia” através da meditação, do amor à natureza e à vida, e do auto-conhecimento. 
Por fim, a palavra “Zenite”, que designa o ponto mais alto ou o auge de algo, refere-se ao resultado desta “equação”, a finalidade de todos os “cálculos” atingir um ponto mais alto do conhecimento ou da existência espiritual. 

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