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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sexo, amor e matemática

Psicólogos e antropólogos usam cada vez mais contas e equações para tentar desvendar os mistérios do coração. Será que dá certo?

Tentar entender as artimanhas do amor e da sedução por meio de somatórias e equações pode parecer algo de um racionalismo meio pretensioso, mas psicólogos já obtiveram inesperadas revelações usando números. Hoje a matemática está por trás de diversos trabalhos acadêmicos na área, indo desde o estudo de aspectos biológicos do sexo até (por que não?) o amor.

É claro que os assuntos do coração nunca poderão ser todos reduzidos a garranchos numa lousa. A matemática, porém, já se mostrou capaz de identificar padrões e dinâmicas no jogo da sedução. Nesta reportagem, GALILEU mostra alguns exemplos disso e conversa com a matemática Clio Cresswell, da Universidade de New South Wales (Austrália), uma especialista no assunto. Pode ser exagero dizer que os números sempre acertam, mas é inegável que estão tentando e, de vez em quando, conseguem.


Como escolher alguém para casar?
 
Um matemático que trabalhava para o sultão de um obscuro reinado tinha de escolher a melhor esposa para seu monarca numa amostra de cem pretendentes. As mulheres seriam apresentadas a ele uma a uma, e ele podia rejeitá-las. Contudo, no momento em que ele aceitasse uma, não poderia voltar atrás. 


O sábio resolveu atribuir notas às mulheres e montar um ranking de preferência para organizar tudo. Mas qual seria a estratégia a adotar para maximizar a chance de se obter a melhor esposa?

A solução é a seguinte:

1 - Dar notas às primeiras 37 mulheres, e rejeitá-las
2 - Verificar qual a melhor nota entre essas
3 - Retomar a avaliação das outras mulheres
4 - Escolher a primeira que atingir uma nota mais alta que a melhor das 37 primeiras

Usando essa estratégia, o matemático tem 37% de chances de escolher a melhor esposa para o sultão. Pode parecer pouco, mas é bem melhor do que a chance de 1% que ele teria se escolhesse uma por sorteio.

Com base no conto do sultão, o cientista Peter Todd, do Instituto Max Planck de Pesquisa Psicológica, calculou com quantas pessoas alguém precisa ir para a cama antes de escolher uma e "ser feliz para sempre":
A regra das 12 conferidas (the 12 bonk rule)
1 - Saia com pelo menos 12 pretendentes e atribua notas a eles(as)
2 - Dê um pé na bunda do(a) último(a) e continue "pesquisando"
3 - A partir daí, o(a) primeiro(a) que superar a melhor nota dos 12 da primeira etapa deve ser seu príncipe encantado (ou princesa encantada).
Recomenda-se, porém, não levar esse número muito a sério. Os cálculos de Todd assumem que, durante uma vida urbana, uma pessoa encontra em média entre cem e mil potenciais pretendentes. É claro que muitos deles são descartados antes de chegar na sua cama, e é difícil alguém adotar uma postura tão objetiva na vida afetiva. A regra das 12 conferidas, afinal, serve mais para ilustrar o espírito da coisa. Muitas pessoas podem querer continuar "pesquisando" por mais tempo ou sossegar mais cedo, é claro.

É possível todos ficarem contentes com seus pares?
 
Imagine uma situação em que quatro mulheres (Gisele, Nicole, Jennifer e Pamela) e quatro homens (Brad, Tom, Rodrigo e Woody) naufragam numa ilha deserta e são obrigados a viver lá. Logo a troca de olhares começa a sugerir quem pode se juntar com quem, mas cada um tem uma lista de preferências (veja ao lado). 


Existe alguma maneira de formar quatro casais e depois todos revelarem suas listas, sendo que ninguém queira desistir depois para tentar uma opção melhor? 


Esse é um problema do campo de estudo chamado Teoria dos Jogos, que já rendeu um Prêmio Nobel ao matemático John Nash. Uma situação onde nenhum dos náufragos mudasse sua decisão seria chamada "equilíbrio de Nash" e é isso que estamos procurando.

Mas vamos à solução. Suponhamos que as mulheres combinaram entre si que não iam tomar a iniciativa, apenas aceitar ou rejeitar os assédios. Após algumas idas e vindas, o equilíbrio de Nash seria atingido com os casais abaixo:

Nesta primeira solução, o índice geral de satisfação entre os homens seria maior, já que Tom ficou com sua primeira opção, e Brad e Rodrigo com suas segundas. Gisele, por exemplo, não quer largar Tom porque sabe que não tem chances com Rodrigo.

Se as mulheres tomarem a iniciativa, porém, a configuração dos casais em equilíbrio de Nash seria esta à esquerda:

Agora o índice geral de satisfação está maior entre as mulheres. Moral da história: num grupo onde as mulheres não tomam a iniciativa (apenas aceitam ou rejeitam investidas), os homens sempre serão mais felizes em média, numa situação de equilíbrio.

Sites de relacionamento funcionam?

Basicamente, o que fazem os sites de relacionamento é atribuir um perfil numérico para pessoas com base em questionários de múltipla escolha. São feitas desde perguntas como "que tipo de musica você gosta?" até coisas mais diretas sobre que tipo de parceiro se está procurando. Um algoritmo matemático então calcula "distâncias" entre tipos de pessoas e indica para um determinado cliente quais são os perfis mais próximos. 



Parece OK, não?

O problema é que esse método está sujeito a um efeito que os matemáticos apelidaram de "maldição da dimensionalidade". Pode parecer que quanto mais perguntas tem o questionário, mais preciso ele vai ser, mas na prática acontece outra coisa. Elevar o número de perguntas aumenta a tendência dos perfis de se posicionarem em distâncias semelhantes uns dos outros. 

Dessa forma, a pessoa mais distante e a pessoa mais próxima de um cliente acabam caindo em números irrisoriamente semelhantes. Dá quase no mesmo que simplesmente sortear um par perfeito. Mas, quem sabe, o destino não se encarrega de juntar as almas gêmeas?

Sexo no casamento tem algum padrão? 

Uma crença disseminada nos EUA é a de que o seguinte experimento é real:
A partir da lua-de-mel, jogue um grão de feijão num jarro ao lado da cama, cada vez que fizer sexo. Continue enumerando as noites de alegria com os feijões até completar um ano de casado. A partir do segundo ano, comece a tirar grãos de feijão do jarro (ao invés de pôr) cada vez que tiver sexo. A crença popular é de que, ao final do casamento, seja por morte ou divórcio, ainda haverá grãos sobrando no jarro.

Um pouco assustador, não? 

Com a intenção de testar se essa teoria de botequim poderia se encaixar na realidade, o matemático americano J. David Martin foi para a lousa. Ele tentou encontrar uma função para descrever a teoria dos feijões com números que não fossem muito absurdos - sem nenhum declínio abrupto. Não conseguiu. 

Mesmo com a hipótese de um dedicado primeiro ano com mil "eventos coitais", não havia como desenhar uma curva de declínio minimamente realista. Martin então tentou um cenário diferente: o casal só deve começar a retirar os feijões do jarro depois de dois anos de casamento. Pode parecer assustador, mas nessa hipótese algumas curvas de declínio pareciam mais realistas.

O trabalho de Martin pode parecer sem propósito, mas ganhou aplicação no estudo de doenças como câncer de colo de útero e problemas de infertilidade. Quanto à vida conjugal, recomenda-se deixar os feijões de lado se o assunto é sexo.

Mathematics and Sex

Sem medo dos números


A matemática é uma ciência exata, mas tem muito a dizer sobre o comportamento humano, acredita a britânica Clio Cresswell, autora de "Mathematics and Sex". Ela esclarece para GALILEU que não há motivo para temer os números.

GALILEU: Você se depara com ceticismo das pessoas em acreditar que a matemática pode revelar algo sobre amor ou sexo?
Clio: Sim, e isso é uma das coisas que quero mudar. Muita gente acha que matemática é só um método para quantificar coisas, mas na verdade é uma entre as várias formas humanas de expressão, como a pintura ou a dança. Se você está falando de amor, às vezes a poesia pode expressar algo que você não consegue dizer em prosa. A matemática é apenas uma outra maneira de explorar padrões complexos em nossas vidas. É uma maneira de tomar consciência desses padrões, e não significa ser escravo deles. É só uma questão de tomar consciência de nossa humanidade.

 
GALILEU: Dá para levar a sério a regra das 12 conferidas, por exemplo?
Clio: Eu faço piada com a regra dos 12, mas há algo de belo nela. Se vivêssemos numa sociedade de grupos pequenos, como vivíamos uns 200 anos atrás, você realmente não encontraria muitas pessoas fora do seu círculo local. Naquela época, se você se casasse com a primeira ou segunda pessoa que encontrasse, poderia ser muito feliz. Hoje, porém, temos oportunidade de encontrar pessoas em qualquer lugar do mundo. Mas, se há tantas pessoas com quem posso me relacionar, será que tenho de sair com mil homens antes de encontrar o meu? Não. É preciso só de uma pequena amostra. Dependendo da cultura, 12 pode ser um número alto ou baixo, mas a regra indica que talvez você não tenha de procurar muito.

 
GALILEU: A matemática pode substituir o horóscopo?
Clio: As pessoas lêem horóscopo, mas têm medo de misturar matemática e amor. Só que a matemática prevê a bolsa de valores muito melhor do que a astrologia. Acho que as pessoas têm que ter a cabeça aberta para tudo.


Por: Rafael Garcia

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Rafael Garcia. Revista Galileu. Edição 187 - Fev/07
 

Um comentário:

  1. Muito legal a postagem. Até nesse aspecto a matemática tem contribuição. Um abraço.

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